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  • Denise Castro

I quit myself or…eigentlich her.


Cá estou diante do computador tentando fazer ela começar do zero novamente. Ela que na adolescência tinha um foco enorme em grandes atividades. Praticava esportes diariamente. Tocava violão diariamente. Sentava durante horas pra estudar e lia pelo menos um livro por semana. Ela também tinha vários diários, no qual queixava suas lamúrias sobre os boyzinhos da escola e sobre a festa de aniversário no meio da semana, que seus pais não a permitiram ir. Nossa, que vida difícil ela tinha. Por outro lado, quanta disciplina e fome de vencer ela tinha.

Essa fome não morreu… porém a fome deu lugar a espaços intercalados de vazio. Naquele tempo, se ela quisesse conversar com os amigos, precisava apenas esperar o intervalo ou recreio. Se quisesse falar durante horas, era preciso ir à praça, receber o amigo em casa ou ir à casa do amigo. Eram ao todo uns 10 amigos mesmo íntimos, nos quais usava seu tempo livre para partilhar ideias, lamentações, acordes de violão ou rir da insistência da Globo em passar “A Lagoa Azul” na sessão da tarde. Os grupos de amigos aumentaram quando mudaram os contextos. Tinha a “galera da escola” e tinha a “galera da faculdade”. Que maravilha é a vida, não? Mudam-se os tempos, agregam-se novos grupos e temos que nos virar nos 30 pra encontrar tempo e encontrar essas pessoas. Em dias separados… porque já fizemos a experiência de juntar a “galera da escola” com a “galera da faculdade” e era uma esquisitice só.

Ela se virou nos 30 e chegou aos 30. Decidiu imigrar ainda nos 20. O imigrar deixou do outro lado do oceano as galeras. Do lado de cá, agregaram-se tantas novas galeras, as quais não só se distinguem em contextos de atividades, tipo: “galera do bairro”, “galera do trabalho”, “galera mãe”. Como também, graças às redes sociais, ela encontrou “galeras maravilhosas internacionais” na: Suíça, Espanha, Holanda, Áustria, Inglaterra, Portugal, Itália, Canadá, EUA… conectadas todas à rede. Teve o prazer de estar pessoalmente com quase todas, partilhando e cultivando uma das coisas que mais ama: a arte de escrever e todo aquele laço entre poesia e literatura. E lamenta muito, muito mesmo, diariamente… ter pessoas tão queridas tão longe dela. Pessoas com as quais não há como dar um jeito depois do trabalho e chamar para um café. Esse é o preço de imigrar e de gostar de pessoas. Eu me apego fácil e não me contento com pouco. Não é fácil dar conta de tanta galera. Porém não conhecê-las sequer… seria um grande desperdício.

Essa ladainha lamechas trouxe-a aqui, porque há muito ela percebia o bônus e a desgraça da vida online. A comunicação tornou-se mais rápida. Conhecer pessoas em outros países já não é mais tão complicado ou caro. Tudo isso você já sabe e nem eu nem ela precisamos explicar. Por outro lado, ela precisava vir aqui dizer que tudo o que ela mais desejava era estar próxima do outro lado do oceano de forma prática. Ela precisava alimentar sua fome de gente. Ela, do fundo do coração não esperava adquirir ansiedade. Ela não esperava passar horas scrolling on the phone. Ela se apercebeu que tudo estava se tornando, ou quase tudo, passivo. Receber, receber, receber…. updates. Ver. Gostar. Ficar quieta. Interagir. Passar adiante. Voltar à realidade. Fazer o update dela. Esperar interação. Pensar na interação. Refletir na interação. scroll…scroll… entrar na inércia… ou na rodinha de exercícios do ratinho.

Frases salteadas por aí começaram a pipocar no cérebro dela:

“Quem não tem rede social não faz aniversário.”

“Eles dizem que estou sumida, porque saí do Instagram e do Facebook, quando continuo no mesmo endereço, no mesmo emprego, com o mesmo número de telefone.”

“Parou de pensar em si mesmo. Começou a esperar demais pelos outro e a viver em função da aprovação do outro.”

“Quem não tem audiência não tem vida e nem amigos.”

“Você pode usar as redes pra trabalhar, para adquirir leitores, clientes.”

“Você pode acompanhar os nascimentos, casamentos, mortes daqueles que estão longe de sua rotina.”

……………..

“Stop!” Ela disse a si mesma.

Existem motivos diversos. Ela resolveu ouvir o seu próprio motivo que se misturou aos motivos alheios. Ela pensou na “melhor versão de si mesma”, frase de impacto, porém bem honesta. Ela lembrou da fase expressa no primeiro parágrafo. Ela tinha tristeza e decepções. Ela tinha galeras. Ela tinha foco. Ela estudava e pensava melhor. Ela era mais ativa e tudo andava pra frente sem a existência de redes sociais.

Ela é grata pela revolução tecnológica. É grata por graças a essas ferramentas ter conhecido pessoas incríveis, inclusive o boy magia atual. E apesar de soar demodé, a conclusão a que ela chegou é a de que: a melhor versão dela não dá conta desse boom passivo. Pra ser a melhor versão, tem que ser mais ativa.

Se o prazer dela é escrever, ela tem que terminar o livro dela! Tem que estar em plataformas que envolvem escritores. Plataformas que envolvem palavras, por mais que as estatísticas mostrem o quão os vídeos são mais eficientes. Tem que usar o scroll time para viver com a sua melhor versão, dedicada a quem realmente importa. Ao ar fresco e gelado da cidade. Às cordas do violão. Ao sabor dos livros e do tempo ocioso para pensar e, por conseguinte, escrever.

Ela percebeu que o tempo passa, passa muito rápido e ela ainda não adquiriu equilíbrio e maturidade pra conviver e usar de forma saudável o que o boom tecnológico nos trouxe. Deve ser a crise natural de todos nós que sabemos o que é viver com e sem internet. Você já reparou que somos a última geração a saber o que é isso?

Talvez a geração a seguir à minha não tenha as mesma crises de identidade que eu e ela temos. Talvez você nem tenha lido este texto todo pra saber aonde eu quero chegar, uma vez que texto longo também está fora de moda. E se veio até aqui, saiba que não cheguei ainda a lugar algum… porque ainda tenho muito o que colocar pra fora, aliás, ela tem muito o que colocar pra fora. A vida não faz pausa, mas os telemóveis continuam a ter o deinstallieren. Ainda existe o botão de desliga nos aparelhos.

Ainda existe um wake up call em mim e nela. Misturado em três idiomas, muitas identidades em busca da melhor versão, immer.

Eu me demiti ou… na verdade a demiti.

Ich kann mich vorstellen, wie vielleicht überrascht du bist. Ja genau das ist Leben. =)

#RedesSociais

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