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  • Denise Castro

Gratidão, um sentimento quase esquecido.


"Aquele sentimento difícil de descrever..."

Parece um pouco redundante esta frase, uma vez que todo e qualquer assunto abstrato é verdadeiramente difícil de descrever, por outro lado, resolvi tentar... até porquê algumas vezes observo o quanto estou me "alemanizando", no que tange ao hábito de constantemente reclamar ao invés de agradecer. Não tenho a intenção de ofender os alemães, na verdade foi meu próprio melhor amigo alemão quem me fez esta colocação. Todas as vezes em que ele me perguntava "wie geht es dir?" (como você está?), eu respondia "passt" (vai se andando...). Ele subitamente acrescentou "du bist schon so Deutsche!" (você já está tão alemã!). Bem, talvez ele tenha razão, pois coincidentemente na mesma semana, em uma reunião no Kindergarten, a educadora de minha filha perguntou-me o que eu gostaria que a pequena desenvolvesse mais, e respondi: "que ela aprenda melhor as regras, seja mais obediente e perceba que há regra e hora pra tudo." A educadora, que por acaso era holandesa, respondeu: "A sra está quase uma alemã."

A pulga atrás da orelha permaneceu e, hoje, em um dia menos agitado, permiti-me sentar para escrever, hábito que tanto amo e tanto me faz bem, porém deixado meio que de lado, devido à "vida alemã". Na verdade devido à necessidade de me obrigar a ter foco na própria língua alemã, para finalmente avançar e subir mais um degrau.

O lugar no qual estou sentada escrevendo este relato, apesar de ser em Nárnia, não é necessariamente a minha casa. Este lugar tem mesas, cadeiras, vinho verde português e a melhor sopa de peixe de Munique e arredores. Cá estou apreciando o alimento, o murmúrio daqueles ao meu redor. Senhoras, senhores, crianças, pessoas com as quais cruzo ao longo dos dias e de minha estadia, nesta pequena cidade, há quase 5 anos. É gostoso esse sentimento de comunidade que minha cidade me transmite, já me sinto "narniana", apesar dos locais nem saberem que vivem em Nárnia, tão inocentes, acham que estão em Grafing.

E mais, que sentimento de gratidão é este que me devastou por inteiro? Seria a inebriante taça de vinho verde ou seria o fato de estar sentada como cliente no meu primeiro local de trabalho, neste retorno à Alemanha, depois da primeira experiência em 2012?

A gratidão fumegou minha alma, misturando-se ao cheiro do café fresquinho, recém saído da máquina no canto esquerdo. Aquele que foi meu chefe veio cumprimentar-me e alegrar-se comigo, sobre meus avanços com o idioma e minha profissão. Para ele, eu era a menina recém mãe que lavava os pratos, que se virava para entender o dialeto dos colegas bávaros; era aquela que aprendeu a se virar na língua italiana de alguns companheiros no restaurante e também aquela que respirava aliviada, quando o colega português chegava, pois não há nada melhor do que ter a oportunidade de usar um pouco a própria língua materna no trabalho, mesmo este sendo na Alemanha.

Sou grata por estar aqui como cliente, ser tratada com 5 estrelas. Sou grata pelos sorrisos e "Grüß Gott" trocados com a gente de minha Nárnia. Sou grata pelas oportunidades que meu esforço, minha insistência, minha família e a fé de meus amigos me permitiram desbravar nesta terra. Sou grata pela saúde e principalmente por ter me permitido fazer uma pausa para, inebriantemente, transbordar em palavras. Estar conectada com a vida fora do ecrã e perceber quando um momento mágico como esse acontece só pode se traduzir como Gratidão. O recorrente é infelizmente me fechar em obrigações e disso sairem os famosos "passt" observados pelo meu amigo.

Se ele que é alemão reconhece isso e procura se conter e ser mais positivo, por que eu, latino-americana, cheia de estereótipos criados pela humanidade não posso também sair de mim mesma, apreciar mais Nárnia e simplesmente agradecer? Essa é a grande luta do "conhece a ti mesmo". Exercício diário de autoconhecimento é extremamente necessário, a escrita, uma excelente ferramenta de transporte.

Às vezes custa-nos apenas alguns papéis e uma caneta... o que neste caso, rendeu-me já um fluxo de consciência de 4 páginas A4, completamente preenchidas. E, se vocês estão lendo isto, é porque consegui digitá-las... que sorte a nossa, nesses casos, existir a internet não é verdade?

Texto escrito em meados de setembro de 2018.

#Cotidiano #Alemanha #Alemão #Escrita #Autoconhecimento #Gratidão #Mindfullness #AtençãoPlena

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