Color logo - no background.png
  • Denise Castro

Sol e Gratidão?


Todas as vezes em que vivenciei o verdadeiro sentimento de gratidão, experimentei o que é de verdade a felicidade.

O Sol, algo tão banal para quem nasceu em Belém do Pará, traz-me hoje uma felicidade imensurável. E digo mais, só de pensar na quantidade de vezes que lá na terrinha reclamei do calor, de estar breada e/ou assada, querendo bebidas frias e a sombra de um poste, já me vem uma dó e um pensamento da tamanha falta de empatia e consideração com quem vive sem sol meses a fio. Quantas vezes nao fugi pro Shopping só pra degustar de um ar-condicionado, sem ver a conta de luz dar um salto ao infinito... quantas vezes nao gastei imensa água - imersa no chuveiro - e escondi-me dentro de casa, para fugir de qualquer raio de sol que aparecesse. Sim, fui por muito tempo ingrata na vida.


Aí você, meu amigo em terras quentes, deve estar imaginando: "que falta de empatia com os lascados de calor em terras do capeta!". Espere, já já você vai entender meu ponto de vista.

O normal hoje é reclamar. Reclamar parece que faz parte da vida, como se fosse preciso reclamar para enxergar certas coisas e tentar mudá-las, mas atenção: e se o ato de reclamar ao invés de fazer parte da vida, ele começasse a ser a vida em forma de reclamação? Será que neste estágio ainda conseguiríamos extrair algum lado positivo do caos?


Ao ler o maravilhoso livro de Jordan B. Peterson, 12 Regras para a vida, encontrei a ratificação de que sim, a vida é sofrimento, entretanto nós - seres humanos - temos memória e "essa é a finalidade da memória. Não é recordar o passado. É impedir que a mesma coisa infeliz aconteça de novo e de novo." E foi exatamente o que fiz, bem humoradamente falando, saí da lasqueira do calor e fui para o outro extremo, a Alemanha. Resolveu? Não. Na terra da cerveja, iniciou-se uma nova ladainha de reclamação... mudou sim o ambiente, então supostamente o problema deveria ir embora, mas como somos expert em procurar problemas, lá caí num ciclo vicioso de novo e precisei literalmente reparar no que estava acontecendo, para entender a mim mesma, foi quando conheci o Mindfulness ou Atenção Plena.


Quando exercitamos a Atenção Plena para entender o que está acontecendo em nossos pensamentos, em nosso corpo e tudo à nossa volta, permitimos a nós mesmos enxergar ou tentar enxergar outros lados da moeda de um único ponto. Temos, se você reparar bem, muitas bençãos ao nosso redor e diversos motivos para agradecer todos os dias, porém afundamo-nos em pensar naquilo que nos falta, apenas. Em Belém, faltava-me o frio e, por conseguinte, não vivia muito atenciosamente o presente, de forma a extrair o cheiro da chuva, a leveza das sandálias e a praticidade de sair de casa em 10 minutos, por não precisar vestir tanta roupa. Esquecia-me de colher as mangas que caíam nas ruas, lavá-las e me alimentar do que a natureza me dava de borla todos os dias. A única coisa que verdadeiramente eu não esquecia e nem esqueço, é do açaí com farinha. Mano do céu, aquilo é que era vida...


Na Alemanha, concentrei-me dias a fio a reclamar dos cangalhos de inverno, da ausência de luz e da quase impossibilidade de estresse para sair e comprar um pão, sem isto me tornar uma cebola em camadas de roupas. Detalhe, para me aquecer por 5 minutos na rua, uma vez que ao entrar na padaria, o aquecedor sempre forte virava pra mim dizendo: "Sua gala seca, quem manda se empacotar muito por causa de 5 minutos a pé."


Cadê a minha Atenção Plena para reparar na adaptacão do nosso corpo às diversas temperaturas? E a gratidão por ter a oportunidade de viver as 4 estações do ano? E a alegria de ver um povo que mesmo a -10 graus, está caminhando na rua e continuando suas vidas, uma vez que não há tempo ruim e sim roupa ruim? Se fizermos um esforço, haveremos de encontrar algum lado bom, algum pretexto para pensar positivo e agradecer o vivenciar das experiências diversas que a vida todos os dias nos proporciona. Viver no piloto automático traz remorso, não acham? Normalmente esse remorso atinge um grau de altitude só nas festas de ano novo, quando você repara nos 365 dias que se passaram e você tem a sensação de que não reparou em nada e nem conseguiu contar nos dedos aquilo que realmente o trouxe momentos felizes de Atenção Plena com seu corpo, sua mente e seu espaço. Inesquecíveis segundos de felicidade, frutos provavelmente de uma gratidão.


Pensando nisso, vim resumir um cenário para que tenham uma noção do que quero dizer: meu trabalho aqui começa às 06:30h da manhã. Moro em Narnia, significa que estou a 42km do meu trabalho. Significa que tenho que acordar às 4h da manhã. Pegar o trem de 05:08h, para chegar às 06:15h no escritório. Significa que a nega aqui padeceu nas manhãs de inverno, reclamando pra caramba de tudo, esquecendo da maravilha que é ter um trabalho e de que o inverno não dura para sempre, apesar de parecer né, Deutschland, sua linda. Não dei ouvidos ao que os ventos gélidos estavam tentando me dizer... mas hoje a ficha caiu, hoje vi a maravilha que é começar a trabalhar às 06:30h da manhã. No verão, posso todos os dias ouvir os passarinhos serelepes e assistir ao nascer do Sol - algo extremamente terapêutico antes do trabalho-, posso ver o sorriso frequente dos colegas no escritório; posso esbarrar-me em roseiras espalhadas pela cidade, uma mais linda que a outra. Posso sentir o Sol como um laser na pele, uma vez que a umidade aqui nao é o forte...(ei, isso foi uma reclamação) Posso estender-me como uma lagartixa em um Café, fugir da sombra e dos ares-condicionados, para sentir de verdade calor e estar plenamente feliz, totalmente grata, totalmente o oposto da menina que fugia pro Shopping.


O sol faz falta. E só depois de "perdê-lo" meses a fio, parei pra pensar na importância dele. O frio é frio (risos), mas também faz falta, principalmente para não deixar a vida parecer sempre uma festa e nos permitir nos concentrar mais no trabalho e naquilo que pode nos fazer crescer. Se você reparar, os países mais quentes ou com maior presença de sol ao ano apresentam mais problemas sociais e econômicos, enquanto os mais frios não. Eles soam mais disciplinados e sérios, o que vocês acham? Bem, ambos os contextos têm lados bons e ruins, a questão é: onde quer que você esteja, há sempre mil maneiras de contornar as adversidades e não permitir que a negatividade e a reclamação tomem conta de seu eixo.

Na Internet há uma lista maravilhosa de atividades para exercitar a Atenção Plena:


1. Escrita

2. Meditação

3. Exercício físico

4.Alimentacão saudável

... e a lista continua.


A minha preferida é a escrita, como bem sabem, pois foi escrevendo que descobri a quantidade de vezes que reclamava ao dia. Numa proporção de 10, 8 vezes eram reclamações. Como assim, minha gente?


Você tem noção do quanto reclama? Já experimentou descobrir? Esse seria um excelente primeiro passo, só precisa de papel e caneta ou bloco de notas no celular, ah e claro, Atenção Plena para reparar e registrar. Depois de descobrir, agregue atividades que ajudem-no a afastá-lo deste mal, reclamar muito só traz peso nos ombros a nós mesmos.


E pra finalizar, quando você ouvir aquela música do Victor Kley:

"Ô sol vê se não esquece e me ilumina Preciso de você aqui Ô sol vê se enriquece a minha melanina Só você me faz sorrir"

...lembre-se desta paraense que agora adora o Sol, mas já não precisa apenas dele para sorrir, ela encontrou outros motivos... lá na esquina da gratidao, recheada com açaí.

#Gratidão #Reclamação #AtençãoPlena #Alemanha #Belém #Calor #Sol #Mindfulness

102 visualizações
instagram-icon-960.png

Acompanhe também no Instagram @obeabadaescrita

Visite nosso canal no YouTube.

Assine a nossa Newsletter