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  • Denise Castro

Entre ficção e realidade, hesito: o Romance está morrendo?


Este ano, mais do que nos anteriores, tenho reservado um tempo precioso para dar continuidade à leitura assídua de livros diversos. Este compromisso, como é de se esperar, traz sempre novas experiências e aprendizagens, uma delas foi a mim transmitida por Orhan Pamuk, em O Romancista Ingênuo e o Sentimental. Este livro tão maravilhoso e indispensável àqueles que escrevem e, especialmente, àqueles que produzem romances ou têm intenção de escrever um, deu-me um instante de choque e arrepios após iniciar um valoroso diálogo sobre Ficção e Realidade. Coloco ambas as palavras em maiúsculas para ressaltar, se me permitem ser redundante, a altíssima importância destes dois elementos na escrita de um texto literário.

E para guardar informações tão pertinentes como essa, é necessário não somente se entregar de corpo e alma à leitura, mas fazer um fichamento, ou seja, guardar excertos e pontos centrais dos livros que você lê em prol de aprimorar sua escrita.

Observação: Este livro de Pamuk li em formato E-book e o Kindle Paperwhite faz um excelente trabalho guardando trechos (Highlights) e notas. Deixem-me saber nos comentários se desejam aprender como fazer um Fichamento (manual e digital) e exportá-lo para o computador, de forma a organizar todos os seus fichamento em um único lugar.

Seguimos, então, ao diálogo com alguns comentários e as palavras do próprio Pamuk:

01. "Mesmo hoje, quando o conceito de ficção estabelecido pelo romance moderno é aceito em todo o mundo, em grande parte graças ao cinema, a pergunta “Isso realmente aconteceu com você?”— uma relíquia da época de Defoe— não perdeu a validade. Ao contrário, nos últimos trezentos anos essa pergunta tem sido uma das principais forças de sustentação da arte do romance e de sua popularidade."

02. "Nós também, talvez, viajamos num trem noturno sob uma densa nevasca. Nós também podemos ter tido dificuldade para ler um romance quando estávamos com a cabeça em outras coisas. Nossa experiência provavelmente não ocorreu no trem de Moscou a São Petersburgo, como a de Anna na narrativa de Tolstói. Mas vivemos suficientes experiências similares para podermos partilhar as sensações da personagem. O caráter sugestivo universal e os limites do romance são determinados por esse aspecto compartilhado da vida cotidiana. Quando ninguém mais viajar pelo trem noturno com um romance como companhia, os leitores terão dificuldade para entender a situação de Anna no trem; e quando dezenas de milhares desses detalhes desaparecerem, os leitores terão dificuldade para entender Anna Kariênina, o romance."

Quando li este pequeno trecho destacado em vermelho, no segundo excerto, veio-me um calafrio... entendam o porquê:

  • Já imaginaram a possibilidade de tudo aquilo que soa real e natural pra você num dado momento de repente não fazer mais sentido? Tal e qual ler um livro em um trem noturno?

  • Já imaginaram a necessidade de criar cenas para tentar imitar uma realidade e, nessa busca de aproximar o leitor ao seu texto, você perceber que seu texto congelou num tempo e espaço que já não existe mais?

Este susto fez eu realmente pensar no questionamento de Ference Fehér, sobre a possibilidade do romance - enquanto gênero literário - estar morrendo. E, honestamente, em meio ao ritmo acelerado e à falta de foco atual diante de textos digitais, é bem provável que o gênero não consiga se sustentar tal e qual o conhecemos hoje. Porém, nada o impede de ser "reciclado", apesar disso abalar minhas estruturas... eu gosto de ler romance, gosto de olhar o mundo sob a perspetiva das personagens. Encontrar-me e desencontrar-me em contextos e vozes diversas. Isso acontece, porque:

"Nós também começamos a nos dar conta de que gostávamos de ler romances justamente para isso: para misturar o imaginário com o real. O que sentimos naquele momento foi— nos termos que propus nestas conferências— o desejo de ser, ao mesmo tempo, “ingênuos” e “sentimentais”. Ler um romance, assim como escrever um romance, envolve uma constante oscilação entre essas duas disposições mentais."

[...]

"Deve ser esse o sentido da muito citada frase atribuída a Flaubert: “Madame Bovary sou eu”. Flaubert não era mulher, nunca se casou e levou uma vida que não tem a menor semelhança com a de sua heroína. Mas viveu e testemunhou as experiências sensoriais de madame Bovary da mesma forma que ela (a infelicidade, o anseio por uma vida movimentada, a estreiteza da vida numa cidade pequena da França oitocentista, a dura diferença entre o sonho e a realidade da classe média)."

[...]

"A precisão, a clareza e a beleza dos detalhes, a sensação de que - sim, é exatamente assim, eis aí! - que a descrição provoca dentro de nós e a capacidade inspiradora de um texto para dar vida a uma cena em nossa imaginação— essas são as qualidades que nos levam a admirar um escritor."

Agora imagine como está o mundo hoje. Atente à informação que alguns sites fornecem sobre o texto, muito antes de você começar a ler. Você sabe do que estou falando? Não?! Estou me referindo àquela ferramenta que o Medium, o Blogger, o Kindle oferece:

O tempo estimado de leitura.

Por que já há esse tipo de informação no rodapé?

Porque hoje é imprescindível, para muitos, saber o quanto de tempo a leitura vai consumir de sua vida. A vida hoje é assim, sem ritmo de romance, no qual você abre/abria e se delicia/deliciava com as páginas no seu ritmo; na sua profundidade. Observe que não estou generalizando, estou apenas apontando um fato: cada vez mais a informação de "tempo estimado de leitura" tem sido uma ferramenta presente no rodapé dos textos (digitais). Ainda bem que os livros impressos ainda não tem esse "carimbo", todavia quem o garante salvá-los no futuro? Quem garante a impossibilidade de haver divisões nas livrarias e bibliotecas não apenas por gênero, como também por "tempo de leitura"? Prateleiras marcadas por cronômetros ou "Zona dos acelerados." "Modo slow motion". E então você pergunta ao atendente onde está a secção do livros "ao ritmo natural" e ele te olha meio que assim:

Apesar de ter fé literária de que isto não se sucederá... não desconsidero a hipótese.

Veja o reforço dado também por Pamuk:

"Um dos prazeres essenciais que sentimos ao ler um romance— como Anna Kariênina lendo no trem— é o de comparar nossa vida com a vida dos outros."

Contra fatos não há argumentos, todos nós fazemos isso. Uns mais, outros menos, mas há sempre qualquer comparação. Porém, devo dizer que o romance já não é mais o centro dessa atividade nata ao homem. Já criaram Facebook, Instagram, Snapchat e por aí vai... para praticar tal "exercício" comparativo...

Percebem o grau da minha tristeza ao considerar a possibilidade do Romance estar, de fato, morrendo?

Por outro lado... já agora voltando à positividade: saibam que vive em mim ainda fortemente a esperança da imortalidade. Do desafio em produzir uma obra que sobreviva a vários séculos de contextos diversos, tal e qual Shakespeare, Machado de Assis, Saramago, Virginia Woolf e Simone de Beauvoir ainda vivem entre nós. E tantos outros que já existiram e ainda existem, capazes de nos conectar a textos por horas a fio, sem imaginar ou desejar um término planejado. É uma "Felicidade Clandestina" que invade o meu peito e assegura o meu desejo de mais romance, igualzinho à personagem de Clarice:

"Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante."

Temos ainda muito o que dialogar sobre este tema e o Romance.

Livros: O Romancista ingênio e o sentimental, Orhan Pamuk.

O Romance está morrendo? Ference Féher

Felicidade Clandestina, Clarice Lispector

Curiosidade - soundtrack durante a escrita deste artigo:

Now we are free, Lisa Gerrard

Acompanhe minhas leituras:

Skoob

#Romance #Reflexão #Tempo #Literatura #Gêneroliterário #DeniseCastro

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